O caminho do bem: um papo com Bel Santos

Bel Santos Mayer é uma ativista incansável da luta antirracista, do direito à educação e à leitura. Aos 14 anos, se envolveu com movimentos sociais no Parque Santa Madalena, bairro periférico de São Paulo onde passou a infância. Ali, como muitos lugares ainda hoje, não havia política pública de cultura, as escolas se tornavam cada vez mais sucateadas, adolescentes eram cooptados para o tráfico e conflitos entre grupos armados eram constantes. Neste contexto, ela se juntou a colegas para alfabetizar adultos e jovens que não estudavam. Bel virou uma das professoras do bairro.

Há 26 anos, coordena o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), organização sem fins lucrativos fundada em 1981. Em 2008, após projetos na área dos Direitos Humanos, a educadora resolveu se concentrar em Parelheiros, região periférica rural de São Paulo - à época, com o menor índice de desenvolvimento humano da cidade. “Fui fazer graduação em Turismo em 2011, por causa de Parelheiros. A região com duas APAs (Áreas de Proteção Ambiental) estava na iminência de virar um Polo de Ecoturismo, o que aconteceu em 2013. Eu queria contribuir para o Turismo de Base Comunitária, aproximando pessoas que estivessem pesquisando e realizando sobre o tema”, conta. Junto com os jovens da comunidade, criaram a biblioteca comunitária Caminhos da Leitura.  Seu trabalho de mestrado deu origem ao livro ‘Parelheiros idas e vi(n)das: ler, viajar e mover-se com uma biblioteca’, publicado pela Solisluna e Selo Emília.

“A literatura é um jeito de nos proteger e seguir registrando nossa existência e suas complexidades.”

 

 

- A Biblioteca Caminhos da Leitura, criada em um cemitério em Parelheiros, periferia de São Paulo, levou vida a um espaço que remete justamente ao contrário. Como surgiu essa ideia e como foi a reação das pessoas da comunidade, a princípio?

Há 26 anos, coordeno uma organização social (IBEAC) fundada em 1981. Em 2008, depois de criar e realizar vários projetos nas áreas dos direitos humanos, decidimos nos concentrar em um único local: Parelheiros, à época, o menor índice de desenvolvimento humano da cidade. Ali se repetiria algo que eu já tinha vivido na infância e adolescência: ausência de equipamentos culturais. Com dois agravantes: falta de espaços por ser Área de Proteção Ambiental (APA) e por não haver coletivos juvenis.

A biblioteca nasceu do meu encontro e de Vera Lion (diretora do IBEAC) com os(as) jovens da comunidade. Inicialmente, ocupamos uma Unidade Básica de Saúde. Enquanto as pessoas esperavam o atendimento de saúde, os jovens liam poesia. Cuidado completo com a saúde. Assim foi por um ano e pouco, até que chegou um dentista. Ele precisou da nossa salinha. A comunidade nos ajudou a encontrar um novo abrigo. E a casa do coveiro foi o lugar disponível. Poderíamos ler essa mudança como uma piora, mas não foi. Embora todos tenham estranhado e alguns jovens tenham pensado ou verbalizado que não iriam “nem mortos”, o inusitado começou a atrair a atenção de muitas pessoas de perto e de longe. Ficamos 11 anos no cemitério. Até que na pandemia, a empresa que faz a gestão pediu a devolução da casinha para ampliar a área de sepultura. Mais uma vez poderia ser apenas uma história triste: fechamento de uma biblioteca, mas não é. Acabamos distribuindo os livros na comunidade até que a Biblioteca floresça em outro lugar. Esse outro lugar já existe. Ganhamos um terreno e vamos plantar 10.639 árvores nele, antes de fazer a biblioteca.

- Você é da área de Turismo. Como desenvolveu um projeto tão rico e referência na área da educação? 

Fui fazer a graduação em Turismo em 2011, por causa de Parelheiros. Na academia, encontrei o campo de pesquisa Paradigma das Novas Mobilidades (PNM), desenvolvido por John Urry e Mimi Scheler, que consideram a (i)mobilidade uma chave de leitura de todos os fenômenos que ocorrem no mundo. Eu me dediquei a olhar a mobilidade de uma biblioteca comunitária, a Caminhos da Leitura. Todo o processo da pesquisa foi bastante participativo. A sua escrita não poderia ser diferente. Fiz um texto com muita poesia, música, diálogo, fotografias. Escrevi para a academia e, também, para minha mãe e as mães de Parelheiros. Tudo bem explicadinho na metodologia. Isso tem feito do texto uma referência para novos pesquisadores(as). A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura segue se movendo.

- Como engajar na leitura pessoas de comunidades mais pobres, se, muitas vezes, as necessidades são de ordem urgente, como se alimentar, ter segurança e moradia digna, por exemplo?

Como escreveu Antonio Candido, ninguém vive sem fabulação. E Leda Maria Martins lembra que a literatura sempre esteve presente nas famílias mais pobres. O que nos faltava eram livros. Esse objeto de arte que podemos carregar na bolsa, no bolso e, por que não, colocar no chão em que uma comunidade pisa? A resposta de Parelheiros e de outras periferias, ao se embrenharem nesse caminho sem retrocessos (o caminhos da leitura), revela que todas, todos e todes podem gostar de ler.

- Após quase 15 anos da implantação da Caminhos da Leitura, quais foram os frutos colhidos, para a comunidade, em geral, e para você, em particular?

Há uma comunidade leitora em Parelheiros. Os jovens que criaram a Caminhos da Leitura, criaram as primeiras estantes de livros de suas casas, são os primeiros universitários de suas famílias, são referências para suas comunidades. E hoje, ouso dizer, que estão (estamos) construindo uma ancestralidade literária em Parelheiros. As crianças, os(as) adolescentes já não precisam de tanto tempo para se apaixonar pela literatura. Já estamos começando a pesquisar o tema. Os ganhos para mim são muitos: contribuir para a construção de um “Brasil que lê”, poder dedicar-me à pesquisa do tema e, de forma coletiva, ver muitos olhos brilhando de orgulho por Parelheiros estar a caminho de ser um território leitor.

- Para escrever 'Um defeito de cor', que traz muito a questão dos antepassados e da ancestralidade, Ana Maria Gonçalves passou um tempo na Bahia. Você tem família no Recôncavo Baiano. Tem sensação de pertencimento quando está na Bahia? Pensa em fazer algum projeto na Bahia ou inspirado nela?

Ana Maria Gonçalves! Amamos! Eu e os jovens estivemos com ela em três ocasiões, falando da sua obra e de literatura em geral. Essa proximidade entre as(os) autoras(es) e seus jovens leitores(as) me emociona. Tenho primos maternos em Santo Amaro. Pretendo encontrá-los. Quero muito passar um tempo em Terra Nova, cidade das avós, do meu pai e da minha mãe. Estive lá duas vezes, mas era muito criança. Eu gostaria muito de acessar fotografias antigas da cidade, conversar com historiadores, saber um pouco mais sobre os meus, sobre mim. Há muitos buracos (silêncios) na história das minhas ancestrais. Nem sempre as mais velhas querem contar as dores. Eu vivo recolhendo histórias com meu pai e mãe. Há pouquíssimas fotos. Sinto que falta um pedacinho da Bel.

- Como atrair crianças, jovens e até mesmo adultos, para a leitura, em tempos de redes sociais e, cada vez mais, a dependência delas?

Só há um jeito: lendo. Gastando tempo com a leitura. Expondo as pessoas às histórias e aos livros. Repetindo o gesto. Lendo, também. Conversando sobre os livros. Não adianta só “mandar ler”. É preciso ser exemplo.

- O sistema educacional brasileiro tem conseguido acompanhar a evolução da luta racial, no sentido de ensinar conceitos e práticas antirracistas em sala de aula?

Passados 20 anos da implementação da Lei 10.639/2003, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/2003) para incluir a história e cultura da África e dos Afro-brasileiros, pesquisas recentes como a realizada pelo Geledés e Instituto Alana revelam a baixa adesão de municípios a ela. Há estados, como São Paulo, em que 75% dos municípios não aderiram à lei: não implementaram programas de formação de educadores(as) do sistema público e particular para sabermos mais sobre nós mesmos(as). Escolhe-se a ignorância e a arrogância de bastar-se a si próprios. Onde as existências, os saberes, fazeres, a cosmovisão de mais da metade da população não interessa à outra parte, há uma educação incompleta. Isto no que se refere à questão macro. No miúdo, no chão da sala de aula há educadores(as) criando práticas sensíveis profundas, articuladas.

- A leitura é uma arma potente contra o racismo. Quais obras você indica para os jovens que queiram entender mais sobre o tema?

O racismo tem uma arma apontada para a cabeça e para o peito de cada pessoa preta, esteja ela distraída ou armada. O projeto do Estado para nos eliminar desde a escravização dos(as) nossos ancestrais, vem falhando pela incapacidade dos algozes e por nossas resistências. Quero pensar a literatura como escudo, protegendo nossas cabeças, nossos pensamentos, os corpos dos nossos mais jovens (principalmente algo do genocídio da população negra). Não podemos permitir que matem nosso presente e nosso futuro, como já fizeram ao destruir documentos da escravização negra, das rebeliões, dos saques ao continente africano, dos ataques aos quilombos, roubos de objetos sagrados e outras atrocidades. A literatura é um jeito de nos proteger e seguir registrando nossa existência e suas complexidades. 

Difícil indicar poucos livros. Sobre o tema racismos cotidianos, proponho tudo de Cidinha da Silva, especialmente ‘Parem de nos matar’ (Jandaíra), ‘Sobreviventes’ (Pallas) e o recente ‘Tecnologias ancestrais de produção de infinitos’ (Martelo).

Sugiro olhar o que vem sendo produzido na literatura para as infâncias. Muitos textos, ilustrações e temas apaixonantes como ‘Aqui e aqui’, de Caio Zero (Companhia das Letrinhas), sobre mães trabalhadoras, ou ‘Fevereiro’, de Carol Fernandes (Editora Caixote), que relata uma festa dos Filhos de Gandhi na perspectiva de uma criança pequena. Há muitos autores e autoras novas surgindo. Vale a pena passar nas livrarias e bibliotecas.


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